Sunday, October 15, 2006

The Gift :: AM-FM...Concerto Alcobaça

Música: Seguem-se Lisboa e Porto
THE GIFT ENCANTAM NO REGRESSO A CASA

Em época natalícia, os The Gift anteciparam-se na entrega das prendas. Na sexta-feira à noite, o grupo subiu ao palco do Cine-Teatro de Alcobaça para iniciar a digressão nacional de apresentação do novo disco, ‘AM-FM’, deixando deliciados os 330 espectadores que lotaram a sala.

Melodioso e convidativo à introspecção numa primeira fase, o espectáculo evoluiu depois para ritmos mais electrizantes e festivos, tendo sempre como denominador comum a energia e a capacidade vocal de Sónia Tavares. No final, a plateia aplaudiu de pé, com o músico Rodrigo Leão a revelar-se um dos espectadores mais entusiasmados com o concerto.

Depois das actuações em Nova Iorque e Londres, o grupo de Alcobaça escolheu a terra natal para começar a divulgação do seu último trabalho, distinguido já com o disco de prata. Seguem-se espectáculos no São Luiz, em Lisboa (dia 6) e no Rivoli, no Porto (dia 8), ambos com lotação esgotada.

No regresso a casa, após sete anos sem pisar o palco do Cine-Teatro de Alcobaça, o quarteto (reforçado com Diogo na bateria) apostou num cenário psicadélico, com jogos de luzes a sugerir os ambientes urbanos e pormenores luminosos inspirados na evolução tecnológica.

Tal como no disco, desdobrado em duas partes para diferenciar as atmosferas sonoras, o concerto de anteontem foi sintonizado em dois comprimentos de onda. Primeiro, embalou-se a plateia com os temas incluídos em AM. Em seguida, o grupo pegou no ‘Driving you slow’ (o primeiro single extraído do álbum) e conduziu o público para momentos mais ritmados e extrovertidos, com as músicas contidas em FM.

Quando todos pareciam já rendidos à sonoridade dos novos temas, a banda de Alcobaça resolveu dar o ‘golpe’ final, levando a plateia ao rubro com a interpretação de ‘Front Of’, recuperado do álbum ‘Film’. O grupo ainda regressou ao palco para um ‘encore’, que culminou com ‘So Free’. Se dúvidas houvesse quanto à qualidade do novo trabalho do grupo de Sónia Tavares, elas dissiparam-se após uma viagem de quase duas horas, recheada de inovadoras propostas de sons e melodias.

Francisco Pedro, Leiria
in Correio da Manhã - 2004-12-05

The Gift :: AM-FM

A Toque de Caixa
A HORA DAS CANÇÕES

São poucos, para mal de nós todos, os grupos portugueses que aplicam tanto rigor e tanto cuidado na construção de uma carreira como os bem amados The Gift.

Posta a questão desta forma, quem não os conheça pode construir um retrato cerebral, calculista, frio, do quarteto que Alcobaça viu nascer e crescer – e não é nada disso. Desde ‘Digital Atmosphere’, edição de autor, com circulação limitada e hoje privilégio de coleccionador, aquilo a que temos assistido é a passos de gigante (basta comparar a relativa ingenuidade de ‘Vinyl’ com o conceito de ‘Film’, seguindo daí para o ambicioso novo álbum), entremeados com paragens de maturação e trabalho internos. Nesta linha de raciocínio, posso ir já direito à conclusão: ‘AM-FM’, à venda amanhã, é o melhor, mais completo e mais aberto dos álbuns até hoje rubricados pela banda.

Desde logo porque não perde o sentido de aventura que lhes serve de característica: ao pop (que se desdobra desde os temas atmosféricos à mais pura soul), há uma insistência saudável no risco, sensível nas instrumentações escolhidas, que vão desde cargas com naipe de metais a suportes alicerçados na secção de cordas (London Session Orchestra), passando por harpa, trompa, contrabaixo, ‘wah-wah’ e sapateado (!).

Tudo em nome de uma construção de canções - que, ao longo de ‘AM-FM’, predominam sobre os ambientes - em que se navega entre o imaculado e o rugoso, entre o estado de graça e o ‘noise’, entre o quase solene e o dançável, entre a complexidade justa e a simplicidade envolvente. O resultado global é verdadeiramente magnético, não deixando que quaisquer outras formas de modernidade possam pedir meças ao que aqui se pratica. E são mais de 78 minutos, divididos por dois discos.

Por mim, começaria sempre por ‘FM’ (o segundo CD), com ‘Driving You Slow’ a assumir-se, ao primeiro momento, como a catapulta que pode ajudar a fixar novos adeptos - é uma canção de nível absoluto, um dos pontos mais altos para se perceber o âmbito vocal (e interpretativo) de Sónia Tavares, também em crescimento uniformemente acelerado. O que vale para a continuação com a soul actualizada de ‘11.33’, o tom obsessivo de ‘Cube’, a linearidade aparente de ‘Music’ e por aí fora.

Sem percalços, pode passar-se para ‘AM’, onde ganham peso ‘Are You Near?’ (rítmica muito anos 80), ‘Wallpaper’ (tangente à perfeição, no arranjo e na voz), ‘Elisa’ (é impressão minha ou evoca, sem copiar, o universo Portishead?) e ‘Bonita’ (’loop’ bem montado para deixar correr a melodia e – outra vez – a voz).

Há muito por onde escolher. Na certeza de que este é um daqueles registos que precisa de uso, de descodificação de pormenores, de retenção do essencial. Para ser moderno, são precisas bases e ideias, trabalho e inspiração. No universo The Gift, nada disso peca por defeito: estendem-se as fronteiras da pop, acrescenta-se a lista das canções de eleição, ganha-se o ‘dois em um’: inteligência e sensibilidade. E já nem falo do bom gosto

João Gobern
in Correio da Manhã - 2004-11-28

The Gift :: AM-FM

The Gift reforçam dupla personalidade

Os portugueses The Gift editam, hoje, "AM-FM", o terceiro álbum de originais, repartido em dois discos, com atmosferas sonoras diferentes, e que será apresentado primeiro no estrangeiro e só depois em Portugal.
Os 16 temas cabiam num só CD, mas o grupo de Alcobaça decidiu apostar num duplo álbum, com oito temas em cada disco, porque as músicas tinham "estéticas diferentes", como explicou John Gonçalves, um dos músicos, em entrevista à agência Lusa.
"O 'AM' é para ouvir em casa, é mais calmo e introspectivo; o 'FM' é mais extrovertido, mais para o exterior", referiu o músico.
"AM-FM", que surge três anos depois de "Film", é, segundo John Gonçalves, um álbum "a pensar nos quatro Gift e revela que o grupo não tem um só caminho".
"'Film' foi o apurar de uma estética, com orquestrações mais polidas e este mantém as mesmas técnicas, mas apresenta mais ritmos", descreveu.
Gravado no estúdio de Mário Barreiros, o duplo álbum contou com produção de Nuno Gonçalves e de Will O'Donovan, que já tinha colaborado no disco anterior.
Num diário que manteve no site oficial da banda na Internet, desde meados de Setembro, Nuno Gonçalves, outro dos músicos, escrevia que o disco "está mais focado em detalhes rítmicos" e que é o álbum "mais espontâneo e transparente" que o grupo já fez.
"AM-FM", editado pela La Folie Records e distribuído pela Universal, chega às lojas com um DVD extra, em formato 'digipack' e a um preço de álbum simples. É um risco que a banda assume a pensar também na internacionalização, um "processo demorado que precisa de paciência", diz John Gonçalves. "Se 'Film' pretendeu abrir algumas portas lá fora, o objectivo é escancará-las com o novo disco", sublinhou, referindo que os Gift optaram por apresentar primeiro o álbum no estrangeiro e só depois promovê-lo em Portugal. Depois de um concerto em Londres, no âmbito do Festival Atlantic Waves, o grupo actuou ainda no BB King Blues Club, em Nova Iorque, em Santa Mónica e Santa Fé (Los Angeles).
Por cá, nos dias 3 e 4 de Dezembro, actuam em Alcobaça, percorrem de seguida as lojas FNAC com pequenos 'showcases', antes de tocarem no dia 6 no Teatro São Luiz, em Lisboa, e no dia 8 no Rivoli, no Porto.

in Jornal de Notícias - 2004-11-29

The Gift :: AM-FM... Entrevista

THE GIFT
Toda a Verdade

Têm uma natureza diferente - "AM" mais tranquilo, "FM" mais musculado - mas climas digitais e uma sensibilidade pop semelhantes. Depois da da estreia com "Digital Atmosphere" (1997), da aclamação com "Vynil" (1999) e da divisão de opiniões em "Film" (2001), regressam com o seu projecto mais ambicioso e aquele onde se expõem mais - um duplo CD acompanhado por um DVD que inclui um documentário e um "making-of". Quase dez anos depois de se terem formado em Alcobaça os quatro The Gift (Sónia Tavares, Nuno e John Gonçalves e Miguel Ribeiro) continuam com a mesma determinação de sempre. "Já não temos idade para medos", declaram.

No diário das gravações falam de dúvidas durante o processo criativo. Apesar das hesitações, nesse contexto, serem normais, este foi o álbum mais difícil dos The Gift?
Nuno Gonçalves -
Não, mas nas misturas existiram dúvidas. Até aí estávamos satisfeitos, mas quando chegámos ao fim foi como se não nos tivesse surpreendido. É uma coisa sensorial. Nessa altura, resolvemos voltar a misturá-lo.
Sónia Tavares - Em termos sonoros não tinha a qualidade que pretendíamos, mas tudo o resto estava lá.


Como é que partiram para este disco: dialogaram sobre o rumo a seguir ou as coisas processaram-se intuitivamente?
N.G. -
Como sempre, tem que existir vontade de dizer algo novo e um conceito, pré-definido ou não. Em termos de funcionamento, enquanto compositores, limitamo-nos a sentir qual o momento para editar. Não dizemos: "para a semana vamos compor um disco novo". Em Portugal, há quem utilize o método "9 to 5" e edite não sei quantos discos por ano. Não funcionamos assim. Perdemos tempo com cada disco porque é algo de importante nas nossas vidas. Em 10 anos de carreira, cada disco marca o crescimento da banda e de cada um de nós.

Já afirmaram [Y de 12 Novembro] que quando estavam a compor as canções seguiram direcções diversas. Foi esse factor que conduziu à opção pelo álbum duplo?
N.G. - Sim. As canções tinham vida própria e era difícil encaixá-las num eixo. Tinham uma atitude diferente e identificámo-las como encaixando na ideia "dentro" e "fora" de casa, com um lado introspectivo e outro mais extrovertido. O nome acabou por surgir quando nos apercebemos que o último tema do "Film" se chamava "AM + FM".
S.T.- O "Film" era tão heterogéneo que houve pessoas que não o compreenderam. O facto de este disco ser mais organizado, com duas orientações distintas, ajuda a defini-lo melhor .
Mas também podem ser acusados de indefinição.
S.T. - Um não faz sentido sem o outro. Como o dia não faz sentido sem a noite. É um "cliché" mas tem um fundo de verdade.
N.G. - Os dois juntos acabam por originar um muito bom.
John Gonçalves - Só no fim é que se definiu que cada disco deveria ter um nome. Antes não tínhamos noção se iria ser um disco com dois lados.

O lado "FM", mais extrovertido, como dizem, foi pensado para funcionar ao vivo?
N.G. - Depende do concerto. Quando partimos para uma digressão não sabemos que temas vamos tocar. Varia com a cidade e o público. O "FM" poderá fazer mais sentido num festival de Verão, mas o "AM" poderá fazer mais sentido no Teatro S. Luís, por exemplo. Mas, obviamente, o "FM" é mais direccionado para palco, até porque muitas das músicas cresceram em concertos, como "Red light", "You know" ou "No answer".
J.G. - Não compusemos a pensar no palco, mas mesmo as músicas mais calmas quando tocadas ao vivo ganhavam energia e achámos que ela devia estar tanto no "AM" como no "FM".
O centro da vossa música continua a ser a estrutura clássica da canção, mas aquilo que envolve os temas é mais trabalhado. É o vosso disco com mais detalhes.
N.G. - O objecto de trabalho dos outros discos também era diferente: no "Vinyl" a ideia era transparecer o primeiro impacto dos temas e no "Film" a grandiosidade das canções, dos arranjos e aquele som épico. Aí desprezámos o lado electrónico. Neste disco, não; quisemos ir aos sons microscópicos e fazer um disco de estética coerente. Esses sons são muito trabalhados, mas o facto de não haver tanta carga sonora por trás permitiu que existisse mais espaço. É um disco de silêncios, sobretudo da voz da Sónia. Existiu uma tentativa de pausar as canções e toda essa estrutura foi pensada para atribuir destaque aos detalhes.

Para além da co-produção do Will O'Donovan não há colaborações exteriores ao grupo. É o disco onde se assumem mais?
J.G.- Focámo-nos em nós, mas nunca precisámos de muletas e mesmo no futuro se colaborarmos com alguém será por razões artísticas e não para termos um autocolante na capa a mencionar as colaborações. Neste caso, definimos que ou tínhamos as pessoas que desejávamos [Múm, Four Tet e Wayne Coyne dos Flaming Lips] ou então mais valia assumir o disco por inteiro. Foi o que aconteceu. Não nos escondemos por trás de produtores, colaboradores ou nomes fortes.
N.G - Foi um desafio assumir as programações. Tínhamo-lo feito nos outros, mas não tínhamos ficado inteiramente satisfeitos no último.
J.G. - Nota-se mais sentido colectivo. O "Film" é mais planante. Aqui estamos mais juntos em todas as músicas.


As letras também estão diferentes. Mais cuidadas, diria.
N.G. -
Por alguma razão é a primeira vez que as letras aparecem no disco. No "Film" as prioridades eram outras. Era a dimensão épica e a interpretação da Sónia que interessava. Era um disco de personagens, onde mais importante do que dizia era a forma como o fazia. Neste disco é fundamental o que se diz para perceber do que são feitas as canções.

Há uma canção "escondida" vocalizada em português, "Fácil de entender", o que é inédito em vocês. Foi por isso que a ocultaram?
N.G. -
Não. É a única que consegue ter o melhor do "AM" e do "FM" juntos. Estava em terreno neutro e foi por isso que optámos por ocultá-la. É íntima, com mensagem forte, introspectiva, e depois consegue ter uma vertente pop com refrão. Foi a primeira vez que começámos a fazer a música a partir da letra e da melodia de voz. É das músicas mais fortes do disco.
S.T. - Acaba por ser uma surpresa. Um brinde. Um extra.
N.G. - O português bem cantado é eficaz. No estrangeiro, perguntam-nos se nós cantamos em inglês para abrirmos portas lá fora, e nós respondemos que não. Aliás, se o fizéssemos em português o factor "exótico", na moda, poderia funcionar melhor.


Então qual é a verdadeira razão para optarem pelo inglês?
N.G. -
Desde a infância a maior parte da música que oiço é anglo-saxónica.
J.G. - Mas não fechamos portas ao português.
N.G. - A nossa música é um todo. Se tivéssemos nascido em Nova Iorque seria diferente. Mas há alguma portugalidade na nossa música, nem que seja ao nível de sentimentos como a melancolia e a esperança.
S.T. - Incrivelmente, a minha mãe diz que pareço a Amália a cantar... [risos] Por causa da melancolia, dos olhos fechados...
J.G. - E de dizeres, no fim, obrigaadoo!... [risos]


Nos dois últimos anos a música em Portugal tem mostrado vitalidade, não só ao nível da pop para o grande público, como dos canais alternativos. Mas há um divórcio com o mercado, não vos parece?
N.G. - Através do Clinic [espaço nocturno em Alcobaça gerido pelos Gift] sentimo-nos próximos dessa vaga embora em Portugal ninguém saiba bem o que é isso do "underground" porque o país é "underground"... [risos] Temos tido contacto com essas novas gerações e em termos de criatividade há muitas bandas interessantes. Mas o mercado está castrador. Parece-me que, depois dos Gift, também começou a existir menos medo do "do it yourself". Hoje há mais bandas, mais exposição e uma rádio que passa música portuguesa [Antena 3], mas também é a única...
J.G. - O interessante é a diversidade. O movimento aqui é muito aberto, não existe aquela ideia do "som islandês" ou do "som norueguês". O hip-hop, o rock, a electrónica, o pop electrónico, etc, estão bem. Mas por muito criativas que as pessoas sejam, quando não há condições para viverem do seu trabalho, dispersam-se. O meu medo é que não se aproveite esta geração. É importante existirem condições para as pessoas progredirem como aconteceu connosco nos últimos dez anos.


Não lançam regularmente álbuns nem têm projectos paralelos. Conseguem viver exclusivamente da música neste momento?
J.G. - Se tivéssemos um emprego fixo estaríamos melhor, mas isso não significa que não estejamos felizes. Trabalha-se no Verão para garantir o Inverno. Não temos projectos paralelos e não lançamos discos todos os anos. Funcionamos durante ano e meio de forma intensa e gostamos de estar um longo período sem aparecer. Esses anos são piores, mas foi essa a nossa opção.


Já trabalham juntos há anos. Como é a vossa relação?
J.G. - É boa, mas não é fácil. Eu e o meu irmão temos características semelhantes... O facto de a Sónia ser a única rapariga também não é fácil...
S.T. - São quatro cabeças a pensar, mas somos unidos e temos as mesmas metas.
N.G. - Há discussões, mas faz parte.
J.G. - Também não me agrada nada aquelas bandas muito unidas, sempre prontos para sair à noite juntos...
N.G. - E quando passam os Joy Division dançam todos... [risos]
S.T. - Somos focados. Temos a nossa vida, mas objectivos comuns.
N.G. - Hás vezes chocamos, mas procura-se o melhor caminho para seguir em frente.

Em Portugal, para além do circuito de concertos, não há muitas alternativas para grupos da vossa dimensão exporem a música. Vão a programas como o Herman SIC?
J.G. -
Sim, mas tentamos não fazer tudo. Temos que viver com a TV que existe. É um problema de equilíbrio. Acho que acabamos por dar alguma credibilidade aos programas... [risos].
N.G. - Há a ideia que quando uma banda passa muitas vezes na rádio ou na TV já não presta, mas a música é sempre igual. Se já a ouviste muitas vezes podes não te emocionar como na primeira, mas não deixa de ser boa por isso. Obviamente não vamos a todos os programas, mas se até os Radiohead quando vieram a Portugal na altura do "OK Computer" estavam marcados para o Big Show Sic! Não foram porque demoraram mais tempo do que o previsto no ensaio de som. No DVD [que acompanha o CD] está uma cena fantástica quando fomos à TV regional da Andaluzia. Às tantas eu a Sónia olhámos um para outro e interrogámo-nos sobre o que estávamos ali a fazer. Só tínhamos vontade de rir. Acontece, mas tentamos controlar esse tipo de coisas. Quando entramos na televisão tentamos perceber se podemos levar as nossas luzes e as nossas coreografias. Tentamos controlar ao máximo o processo.
S.T. - Não temos assim tantos programas que nos possamos dar ao luxo de não ir aqueles que não são completamente medíocres. É verdade que a música nunca muda - e não é por passar neste ou naquele programa que perde qualidade - mas é necessário entrarmos na casa das pessoas que não nos conhecem, que não lêem jornais, que não estão atentas.
J.G. - O que é o "Top Of The Pops"? É uma série de adolescentes a dançar em frente a um palco onde estão bandas a tocar em "playback". E, no entanto, todas as bandas passaram por lá. Não há nada a fazer. Agora, é verdade que existe preconceito de algum público em relação a isso.
Quando surgiram valorizava-se muito a vossa energia, o lado "faça-você-mesmo". Nos últimos anos o vosso público aumentou, mas também existem mais anticorpos. Sentem isso?
J.G. - Claramente! E a resposta, em primeiro lugar, é este disco. Se alguém acha que há cedências que oiça o disco com calma. No resto a nossa atitude é a mesma desde o primeiro disco. Estamos focados nos nossos objectivos, tentamos controlar a nossa carreira e gostamos de garantir que o espectáculo de Mangualde tenha a mesma qualidade do de Lisboa. Temos a mesma atitude há dez anos.
N.G. - As diferenças que existem foram conquistadas. Não tinha nenhum prazer em sair de casa às 3 da manhã para colar cartazes, porque não tínhamos estrutura.
S.G. - As pessoas que criaram anticorpos em relação aos Gift são as mesmas que têm em casa discos dos Massive Attack, dos Radiohead ou da Björk, que vendem milhares de discos. Por que é que os Gift têm que ser malvistos? Por gostarmos de partilhar a música com as pessoas? Mas é esse o objectivo! Se não tínhamos ficado na garagem.
J.G. - Estamos a seguir o caminho que escolhemos. A nossa editora, a La Folie, é, para nós, a melhor do mundo. Estamos nela por opção.
S.G. - Já estou como o outro: não importa que falem bem ou mal, importa que falem... [risos]
N.G. - Às vezes até ouvimos coisas do género: ah! estão sempre a armar-se em "coitadinhos"! Ou "o teu pai é rico e paga os discos!".
S.G. - Sim, somos "coitadinhos"! Fartamo-nos de trabalhar!

Que história é essa dos "coitadinhos"?
N.G. -
Dizia-se que era o nosso pai que pagava os discos todos e tal...
J.G. - O meu pai, imagine-se, que nem quer ouvir falar nos nossos investimentos. "Quanto é que pagaram ao produtor? O quê? São completamente malucos"... [risos] O meu pai não tem dinheiro, nem quer investir na banda. Fica é satisfeito de ouvir a música.
S.T. - As pessoas não têm noção do que dizem. Não sabem. Nunca estiveram deste lado. Às vezes sou confrontada com coisas incríveis.
J.G. - Há nomes internacionais como Beck, Air, Björk ou Radiohead que têm esse problema: têm um pé no "mainstream" mas também são para minorias. À nossa escala, temos o mesmo problema. Quanto mais crescemos, mas anticorpos vamos criando, mas há mais pessoas a gostar de nós. No fim de contas, temos é que ser honestos.
S.T. - Mas irrita-me que quanto mais gente existe a gostar de ti, mais pessoas existem a dizer que não vales nada.
N.G. - Isso é muito anos 80, é próprio do espírito "independente": eu quero ser sempre mais "independente" do que tu. Lembras-te quando umas amigas nossas começaram a ouvir Pulp no carro? Tu deixaste de gostar deles... [risos]
S.T. - Passei-me! Os Pulp eram meus! Eram meus... [risos] Quando andava na escola lembro-me de uma amiga minha me aparecer com uma cassete dos Joy Division e eu a pensar: "O que é isto? Quem é esta para andar a ouvir Joy Division?" [risos]
N.G. - Quem gosta de música tem sempre dessas paranóias!

Para além de música, do que é que vocês gostam?
J.G. - Cinema. Futebol.
N.G. - Passo horas a ver TV. É uma fotografia diária do que se passa à minha volta.
S.T. - Em Alcobaça temos que ir quase ao estrangeiro para ir ao cinema. Pelo menos, 30 km. Então habituei-me a ler sobre os filmes, mas não os vejo... [risos] É inacreditável! Quando alguém me fala de um filme eu digo logo: "ah! Esse é aquele daquela história muito engraçada!" ... [risos]


O CD vem acompanhado de um DVD, com um documentário e um "making of" do disco. O que quiseram mostrar com essas imagens?
J.G. - O documentário é consequência de levarmos uma câmara connosco sempre que vamos para o estrangeiro, mas não tem uma linha. Não é um DVD promocional. É uma coisa muito nua e crua que mostra um pouco da Espanha, EUA e Venezuela. É o outro lado dessas viagens. Não há nenhum "glamour" e quisemos expor isso: as zangas, o sermos roubados no final de um espectáculo com alguém a dizer-nos que estavam lá não sei quantas pessoas e nós a ver que estavam muito mais. Não sei se vai vender mais por isso. Acho que não.
N.G. - É mais uma forma de depois de ouvirem o disco e o terem avaliado saberem o que andámos a fazer e quem somos. Quem somos? Bem, por acaso eu saio um pouco maltratado do filme nesse aspecto.
J.G. - Por acaso, é verdade.
S.T. - Bem, por acaso eu também.
J.G. - Mas lá está, não cortámos nada.
N.G. - Não valia a pena. Já não temos idade para termos medos.


Vítor Belanciano
in Y/Público - 26 de Novembro de 2004

The Gift :: Vinyl... Entrevista

TELEX - Sónia Tavares

Qual foi o primeiro disco que compraste?
«Some Girls Wander by Mistake» dos Sister of Mercy, em vinil. Já não o ouço hoje em dia. O único vinil que ainda ouço é o «Republic», dos New Order.


E o primeiro concerto a que assististe?
Tinha, talvez, 9 anos, e foi um concerto de música de câmara dos Carpe Diem, em Alcobaça, com os quais vim, mais tarde, a tocar flauta transversal.


Não sentiste remorsos ao ver uma ave de rapina despedaçar uns ratinhos de laboratório vivos no vídeo do «OK! Do You Want Something Simple?»?
Fiquei no camarim. Recusei-me, terminantemente, a assistir às filmagens, porque é uma coisa que me faz impressão. No vídeo em si não me faz impressão, até porque não se vê muito bem o que se passa. É a ordem natural das coisas.


Já houve algum filme que te tenha feito chorar?
Então não houve?!… Já chorei em muitos filmes, mas o que me fez mais chorar até hoje foi o «Ondas de Paixão».


Quantas vezes por dia costumas pensar que a vida é muito mais complicada do que parece?
Muitas vezes. Sou capaz de estar a pensar nisso o dia todo. Especialmente quanto as coisas se tornam complicadas para mim. Nessas alturas, costumo pensar que é melhor acalmar-me, porque até sou uma pessoa feliz, não tenho tanto azar quanto isso.


Confirmas que o próximo single dos The Gift é uma versão de uma das canções mais populares de Rafael Toral?
Como? Não, não confirmo. Porque é que havia de confirmar? Como não o conheço, se calhar era melhor informar-me.(após breve explicação) Não, não, não, o próximo single não é um tema do Rafael Toral. De forma alguma.

Blitz - 12 de Outubro de 1999

The Gift :: Vinyl... Entrevista

E agora?

Candidatos sérios ao título de projecto português mais importante do ano que corre, os Gift fazem, na On, o balanço de uma existência atribulada pela voz de Nuno Gonçalves e Sónia Tavares, compositor e vocalista, respectivamente.
Confessam-se, analisam-se, e fazem planos à sombra de uma palmeira, numa tarde de fim de Agosto em Lisboa. São o grupo português, de Alcobaça, de que toda a gente fala e chegaram recentemente ao Disco de Ouro, tendo partindo de um regime de edição de autor, com dinheiro do próprio bolso. Não chegaram a acordo quanto a ser este processo um fenómeno, mas sabem o que querem e Portugal não é suficiente.


Ao olharem para trás, que diferenças principais encontram entre os Gift de "Digital Atmosphere"e os Gift de hoje, depois de "Vinyl", o grupo de que toda a gente fala?
Nuno Gonçalves –
Como banda, sentimos que existe mais respeito por nós. O curioso é que estamos cada vez mais empenhados nisto. Vimos que, afinal, tínhamos razão, as coisas não eram tão escuras quanto ao princípio nos pareciam. Como pessoas estamos muito felizes. Os Gift são a nossa vida, são aquilo que sempre quisemos fazer. Como projecto é aqui que isto vai começar. O que ficou para trás o que ficou para trás foi uma longa caminhada para nos pormos no pelotão.


Disseste, literalmente, que afinal tinham razão. O que é que isso significa?
N.G. – Afinal, valeu mesmo a pena estar a trabalhar para tudo isto. Mesmo tendo dez ou quinze pessoas a ver os concertos da "Digital Atmosphre Tour", apesar de todo o trabalho envolvido. Muitas vezes chegamos a pensar "Será que o problema é nosso? Será que estamos ao contrário de toda a gente?". Muitas vezes chegas ao quarto e o pensamento é esse – "Será que a nossa música vale alguma coisa? Será que temos jeito para isto ou merecemos fazer outra coisa qualquer?". Ao fim de quatro anos vemos que tínhamos razão na aposta. A nossa música tem público e acho que a partir de agora é que vamos começar a ter gozo no que estamos a fazer.

Apesar de acreditar que editaram "Vinyl" com a perfeita convicção de que era um excelente disco, o que é que pensam que o os efectivamente em contacto com tanta gente, facto pouco comum quando a música portuguesa é mais ousada que o prato habitual?
N.G. –
A digressão. Sem dúvida nenhuma. Quero dizer, acho que isto, neste momento, é um fenómeno. Só posso incluir isto na categoria dos fenómenos. As razões? 50 por cento do sucesso devesse à digressão; a nossa atitude; a nossa humildade; a nossa ingenuidade; a nossa maneira de sermos. E a música. Não podemos esquecer-nos que a música, apesar de ser às vezes difícil de ouvir para certas pessoas, foi levada a todas as cidades de uma forma simples. Temos, também, uma estratégia minimamente cautelosa.


Continuam a ser vocês a controlar toda a vossa existência enquanto grupo.
N.G. –
Sim, tudo. Se calhar essa é outra das razões par ao que está a acontecer. Mas é como te digo: isto é um fenómeno e os fenómenos devem ser estudados quando terminam. Neste momento, estamos no "durante". Semana a semana, hora a hora, vão acontecendo coisas que tornam isto melhor. Lembro- me de uma semana concreta em que, ao mesmo tempo, começaram os contactos com as distribuidoras, fomos convidados para os concertos dos Divine Comedy, vendemos a segunda edição de "Vinyl"… Em Maio fomos convidados para quase todas as Queimas das Fitas. Em Junho seguiram os convites para os festivais… São coisas que nos fazem perceber que as coisas estão a acontecer. Mas nem por isso esses acontecimentos nos fazem perder a postura, aquela capacidade de análise fria que nos faz pensar "o que é que ainda + podemos fazer?". Não convém largar valores que sempre respeitámos e defendemos, como a luta pela independência, apesar de estarmos agora no patamar do Disco de Ouro.
Sónia Tavares – Não concordo nada contigo. Acho que não se pode incluir os Gift, mais os 20 mil discos, no meio dos fenómenos. Um fenómeno são 250 mil discos…
N.G. – Não é só o número de vendas, mas esse número aliado ao estilo de música que praticamos.
S.T. – Todos os convites surgiram por causa daquilo que a música é. Ao contrário do que se possa pensar, a música dos Gift não é nada complicada, é muito fácil de ouvir. Chega a qualquer pessoa. Tudo o que nos aconteceu surgiu na sequência de termos sempre batalhado para levar a nossa música ao maior número possível de sítios. Não foram apenas 20 mil pessoas que viram os Gift, mas muito mais, como era a nossa intenção.
N.G. – Falaste numa coisa importante: porque é que outras bandas, se calhar com um produto mais fácil, não conseguem? Lembro-me que, em Dezembro, quando começámos os contactos para a digressão, os nossos cachets eram feitos, numa primeira fase, para cobrir os custos, e, numa segunda fase, para perdermos o mínimo possível. Numa terceira fase, por querermos tanto tocar, a atitude era "não nos importamos de perder bastante, é um investimento". Acho que é essa a ideia que falta a músicos novos que andam por aí. Só por verem o seu vídeo na televisão ou o seu disco nas lojas, pensam que são artistas e podem exagerar nos cachets. Nunca fizemos isso.


Sendo o Nuno o principal mentor da música dos Gift, que preocupações tens quando trabalhas numa canção que, provavelmente, irá a posteriori ser transformada por mais de uma dezena de pessoas? Pensas nisso quando fazes música?
N.G. – Obviamente que penso, quando as coisas começam num simples som de piano, ou de xilofone, ou de outra coisa qualquer. Tento nessa altura, imaginar o tipo de estética que essa música pode ter. Antes de "Vinyl", compunha para cordas sem saber o que os músicos sabiam tocar. Hoje em dia, já sei do que são capazes os músicos que tocam connosco. Já lhes dou maior liberdade para experimentar, coisa que não aconteceu no "Vinyl". Hoje em dia, já penso nas pessoas que vão tocar as músicas e tenho a vida mais facilitada. A colaboração deles é outro factor que contribuiu para que a coisa tenha funcionado. Em termos de composição, gosto de complicar as coisas, não sou nada simplista. A minha ideia é de grandiloquência.

Se é verdade que a música dos Gift é feita com o objectivo que servir de suporte à voz da Sónia, como é que tu, Sónia, te sentes no papel de quem é destinatário e, ao mesmo tempo, intérprete das canções?
S.T. –
O Nuno está com excesso de produtividade. Agora além de fazer as músicas, arranja-as, pe a letra, faz a melodia das vozes e canta as músicas… o meu papel está cada vez mais reduzido. Qualquer dia despede-me. A nossa forma de trabalhar, antes, era: ele dava-me uma cassete com a música e eu só lha devolvia quando tivesse o produto final na mão – voz letra e melodia. O que acontece agora é que o Nuno trabalha, por exemplo, entre a meia noite e as cinco da manhã, aparece e diz: "já aqui está tudo feito". Mas acho que a música não é feita para mim, mas para os Gift. Assumo cada personagem, a música não é feita para a Sónia. No disco havia ambientes que ele queria criar e eu tive que adaptar-me.
N.G. – Sim, quando apresento o produto completamente feito a Sónia acaba por adaptar-se. Mas há casos como "First Chapter" e "How de End Always End", que vivem essencialmente da voz e que a Sónia conseguiu captar. O "First Chapter" tem esse nome porque a Sónia gravou a cassete, deu-ma, e quando falei com ela, disse-lhe que aquele era o primeiro capítulo da história dos Gift. Era mesmo aquilo. A partir daí tem sempre vindo a subir.

Sei não estar errado quando digo que, de "Digital Atmosphere" para "Vinyl", houve um processo de reformulação musical, de transformação das canções em algo mais quente e, por ventura, orgânico. Se é que o tempo disponível já permitiu pensar nisso, o que é que vem a seguir, em termos de novo álbum dos Gift?
N.G. –
Cada vez uma coisa mais orgânica, até porque, quanto a mim, as máquinas estão cada vez mais orgânicas. Conseguem passar sentimentos como o violino. A diferença é que um tem uma postura mais bonita e o outro tem uma postura mais suja. Em termos de futuro, tenho feito várias coisas, tenho pensado em coisas para novas canções, além de pensar em soluções para as canções que temos. O espectáculo do Lux (N.R.: ver reportagem nas páginas de concertos) foi muito bom para nós, deu para voltarmos a trabalharmos, montar um espectáculo novo, para no outro dia voltarmos ao antigo. Acho importante, quando se parte para um disco, ouvir muita coisa que vai sendo entretanto feita. Lembro- me que passámos o ano de 1997 a ouvir os Pigeonhead, o "Homogenic" da Björk, a Mimi, uma data de discos que nos transmitiram muito. Já que não sabemos música, temos que saber o que os nossos professores estão a ditar, quais são as regras. Podemos, a partir daí, captar "flashes" criativos que nos podem ajudar. Esse processo ainda não está em curso porque temos muito pouco tempo.


Como está então composta a essa agenda?
N.G. – Vamos até Dezembro com a "Vinyl Tour". A minha primeira ideia era fechar a digressão e Setembro ou Novembro e fazer, em Dezembro, seis datas acústicas. Não como aparecemos no Lux, mas com cinco ou seis convidados, percussionistas dos quatro cantos do mundo. Isso agradava-me muito e, se calhar, só vou ter tempo para isso daqui a um ano. Em termos de disco novo, quero estar pronto para trabalhar a partir de Dezembro.


Sentem que grande parte da atenção que vos foi inicialmente prestada adveio do facto em regime de autor, a expensas próprias?
N.G. – Sem dúvida que sim. A edição de autor tem esse lado bom. Capta a atenção e aproveita para transmitir: "Já agora oiçam a música". Se não tinha resultado com o "Digital Atmosphere", resultou com o "Vinyl", porque o próprio disco é diferente.
S.T. – Mas tenho a certeza que os 2 mil primeiros discos foram comprados por quem nos viu durante a "Digital Amosphere Tour". Lembro-me de, no concerto dos Massive Attack no Pavilhão Atlântico, andar a distribuir "flyers" do "Vinyl" e de um rapaz ter dito: "Eh pá, os Gift… Deixa lá ver o que é que vem daí". Tenho a e certeza de que foi comprar o disco.

As coisas poderiam ter sido diferentes se assim não fosse, se tivessem uma editora, ou a música que está lá dentro sobreviveria a qualquer coisa?
N.G. –
O "Vinyl" poderia ter tido um rumo totalmente diferente se não fosse a nossa persistência em relação ao single, em primeiro lugar. Em Dezembro, quando dissemos qual devia ser o single, toda a gente nos chamava loucos. «OK, do you want something simple?» ? São mas é parvos… A música é maquinal de todo, nunca vai entrar…". Apostámos e, finalmente, em Março entrou para as playlists nacionais. Creio que, se não fosse isso, a coisa poderia ter tido um rumo diferente. Talvez tivéssemos, em termos de digressão, ficado pelo mês de Maio.

Qual será o vosso futuro nessa matéria, agora que estão já muito mais familiarizados com os mecanismos da indústria?
N.G. – Acho que não fomos nós quem se adaptou à indústria, a indústria é que se adaptou a nós. Tenho a certeza que, por esses gabinetes dessas editoras todas, os Gift são personas non gratas.
S.T. – "Ainda continuamos a levar com o raio dos putos"…
N.G. – Tenho a certeza, pode ser que me engane, quando receberam a notícia do Disco de Prata, uma das reacções dos patrões das editoras foi chamar o A&R (N.R.: o responsável, numa editora, pelo sector Artistas & Reportório) e perguntar-lhe "Então o que é que andas aqui a fazer?". Isso para nós é lindo. Em termos de futuro, não sabemos bem ainda o que vai acontecer. Estamos a dar-nos muito bem com a BMG. Quer nós, quer eles estávamos novos nisto. Tanto para a gestão para a gestão como para o marketing da editora tinham chegado duas pessoas novas. Apesar de serem brasileiros, e de nós pensarmos que lá vinham mais Edibertos, sabem o que querem, sabiam quem eram os Gift. No próximo disco não sabemos. Neste momento, o que é certo é que estamos com a máquina mais do que montada e oleada. Poderíamos, obviamente, fazer outro disco em edição de autor, mas não sei. Vamos esperar para ver o que é que o estrangeiro vai dizer, se as portas se abrem ou se fecham. Consoante a reacção deste "Vinyl" lá for a, sabemos o que se vai fazer no próximo.

Sónia: Como lidas com a exposição a que o teu papel nos Gift te obriga? Sentes-te mais que uma vocalista, por ventura um líder, um símbolo, um objecto de desejo?
S.T –
É uma coisa que já encaro naturalmente. Nunca me sinto nervosa antes dos espectáculos, por exemplo… Pronto! É uma cruz que eu carrego… Às vezes, quando as coisas não correm bem chego a ficar com sentimentos de culpa por pensar que, se calhar, fui eu quem falhou, "Será que disse o que não devia, será que tive a atitude correcta?". Vou confessar mais uma faceta minha: antes dos espectáculos, pergunto sempre ao John o que devo dizer. E o John não me diz nada… Depois saio do concerto a pensar "Disse bem! Estive bem e os Gift saíram bem…". Eu sei que 60 por cento das pessoas estão, num concerto dos Gift, fixadas naquilo que estou a fazer. O que, ao fim e ao cabo, acaba por ser injusto. As atenções vêm todas para mim e, afinal, o mentor e o ditador é o Nuno. Quem devia aparecer nas capas das revistas é ele, quem devia dar entrevistas é ele. Eu identifico-me, num plano pessoal, com a Shirley Manson, dos Garbage. Quem está por trás daquilo tudo é o Butch Vig. Ela dá a cara e dá a voz. É assim que eu sinto, dou a cara e a voz. O Nuno é o Butch Vig.
N.G. – Mas ela assumiu uma personagem mais virada para o sexo, farta-se de mostrar as cuecas…
S.T. – Aí são caminhos completamente diferentes. Não é por eu mostrar as cuecas que chamo mais pessoas. E se chamar são, sinceramente, as que não me interessam. Aqui fique esclarecido: não vou mostrar as cuecas.


Por esta altura, já muita gente andará a questionar-se a propósito de uma eventual investida nos Gift no estrangeiro, na doação de canções para remisturas, entre outras manobras em voga. Qual é a vossa perspectiva em relação a isso?
N.G. –
Obviamente que não achamos que as músicas são estáticas. As músicas são mutantes e se houver boas pessoas, em quem nós confiemos para um trabalho de remistura, tudo bem. Em termos de estrangeiro, esse é e sempre será um objectivo dos Gift a curto prazo. Não faz sentido irmos tocar a Bragança e não irmos tocar a Espanha que é ali a poucos quilómetros. E se tocarmos em Espanha, que sentido faz não tocarmos em França? Está nos nossos horizontes ir lá para fora, a BMG acredita que é possível pôr os Gift lá fora… Estamos a partir no caminho de tentar, através de uma manobra de charme, trazer os "labels" internacionais da BMG ao concerto de Alcobaça (N.R.: que aconteceu no passado dia 18). Tentaremos aí cativá-los para que na convenção da BMG, a 28, 29 e 30 de Setembro, os Gift saiam com distribuição localizada em vários países. Acho que isso é possível em França, eles estão muito abertos… Aí sim, quando falas em remistura, acho que essa pode ser uma estratégia muito boa. Pode ser uma boa bicicleta para chegarmos lá a cima à montanha.


Baseado no vosso estado de espírito neste exacto momento, como seria uma canção dos Gift escrita agora, entre os dois?
N.G. –
Faria uma coisa que, numa parte, teria que ser bonita e introspectiva, e balanceada, com ar de esperança e vitória, numa segunda parte. Numa primeira parte, uma batida cool, uma coisa calma em que a voz da Sónia se enaltecesse; depois, tentar dar a volta e puxar aquilo para cima.
S.T. – Gosto muito da maneira como o Thom York (N.R.: vocalista dos Radiohead) canta e gosto muito da música em que ele colabora com os UNKLE. Teria que ser uma coisa desse género, com esse tipo de ambientes. Se calhar, o que escreveria não teria nada a ver com a forma como iria colocar a voz. A maneira como quereria cantar não teria, se calhar, nada que ver com o estado de espírito que sinto neste momento.


E qual é esse estado de espírito?
S.T –
É um estado mais…não diria agressivo… mais nervoso, mais animalesco. Seria criar uma simbiose entre o Thom York e os Beasty Boys. Se calhar, escreveria sobre o mesmo de sempre, que é o amor. Sou mulher, que hei-de fazer?


Pedro Gonçalves
in ON / O Independente - Setembro de 1999

The Gift :: Vinyl... Entrevista

Viver no Campo

A primeira amostra do trabalho dos The Gift não foi propriamente bem recebida. Vivendo em Alcobaça, os irmãos Nuno e John Gonçalves - mais o amigo Miguel Ribeiro e a Cantora Sónia Tavares - lembraram-se de gravar eles próprios um «single» de apresentação para enviar às rádios e às editoras. No interior do disco seguia uma faixa interactiva com a apresentação da banda, os currículos, os contactos - todas as coisas que na altura julgaram necessário incluir, e que passaram despercebidas. Como aliás o disco. Criaram outros objectivos: uma pequena digressão pelo país, para verem até que ponto a sua música despertava, ou não, um público; um vídeo de longa duração, para registar as imagens desses espectáculos, que distribuíram em finais do Verão passado, pela época em que entravam nos estúdios Tch-tcha-tcha para finalizarem o primeiro álbum, em regime de autofinanciamento.
O disco, e o feérico drama musical que contém, foram apresentados ao vivo em Novembro, no Teatro São Luís, em Lisboa - e foram os próprios músicos que andaram a distribuirfolhetos de promoção à porta do concerto dos Massive Attack.A primeira edição do disco esgotou-se em poucas semanas. Amanhã passam pelo auditório da FNAC/Lisboa, anunciando uma digressão mais ambiciosa para este ano e o contrato com a multinacional BMG para a distribuição da próxima edição de Vinyl.


NUNO GONÇALVES - A edição independente não foi uma decisão forçada - mas uma opção, uma reacção à resposta negativa ao nosso primeiro CD. Era importante fazer o disco. Investimos um pouco mais, porque o disco precisava de mais instrumentistas para ganhar um lado orgânico. O facto detrabalharmos em casa - além da independência de que se fala - permite-nos estar um ano a experimentar coisas. Só fomos ao estúdio fazer as misturas finais e gravar as cordas e as vozes, que precisam de bons microfones e boas condições.

EXPRESSO - O facto de viverem em Alcobaça agravou osproblemas ou as condições de trabalho?
JOHN GONÇALVES - Pode parecer estranho, mas estar em Alcobaça só nos beneficia. Estamos mais aliviados, temos mais tempo. Pronto, é o campo - ou a província, como lhe queiras chamar. Pensar que por viver em Alcobaça as pessoas não têm acesso aos livros, às exposições, à música, aos filmes, é umaideia completamente errada.

EXP. - Isso reflecte-se bastante no vosso disco, e na diversidade de influências que ele apresenta.
MIGUEL RIBEIRO - Gosto muito dos anos 80. Quero dizer, marcou-me bastante, uma PJ Harvey, um Nick Cave, um Tom Waits, o John Cale. Mas os discos que mais ouço hoje em dia se calhar são outras coisas.
NUNO - Começámos a tocar num concurso de Música Moderna do Bar Ben, em Alcobaça, que durante cinco anos todas as semanas levou lá três bandas. Tivemos acesso a tudo o que se fazia em Portugal e a todos os tipos de música - depois, sempre estivemos atentos aos programas de rádio. Na altura, o que me influenciou mais foi o «Margem de Certa Maneira», doRui Vargas, na Rádio Comercial. Realmente influenciou bastante a minha maneira de olhar para a música.

EXP. - As vossas composições utilizam instrumentaçãobastante diversa. Que relação mantêm com atecnologia?
JOHN -
Ir ver concertos acaba por ser sempre uma viagem de estudo: de onde é que vem o som, o que é que eles fazem, que material usam. Temos uma boa relação com o dono de uma loja de instrumentos, sabemos mais ou menos que tipo de instrumentos nos serve. E depois é muito trabalho de casa: estudar como é que as máquinas trabalham, e que tipo deuniverso é que se quer criar. Em matéria de tecnologia hoje em dia não estamos atrás de ninguém. Só por uma questão de disponibilidade financeira.


EXP. - Apesar de tudo, conseguiram vender sozinhos aprimeira edição do disco…
NUNO -
Dois mil e quinhentos discos. O Vinyl só surgiu porque no ano passado tivemos a coragem de fazer uma «tournée» por todo o país - para sabermos se realmente existia ou não um público para o grupo, antes de fazermos o disco e descobrir depois que não havia ninguém para o comprar. Só não esperávamos que acontecesse tão rapidamente. Vendemos o disco em menos de cinco semanas. O mais espantoso é que tínhamos uma estratégia planeada - que incluía a digressão, um clip, uma série de coisas que sãonormais nestas circunstâncias - e o disco vendeu-sesem nada disso. A digressão ainda nem sequer começou…


EXP. - Esta ligação à BMG surgiu acidentalmente, oué algo que já tinham tentado?
JOHN - Quando um disco tem boas críticas e se porta bem em matéria de vendas, as editoras começam a despertar. E se isso ajuda a nossa missão de levar a música ao maior número possível de pessoas, tudo bem, nós vamos.
NUNO - A digressão está preparada para ir até Junho, em Portugal, eventualmente com outros espectáculos que possam surgir em Julho ou Agosto - festivais, coisas pontuais. No ano passado, depois dos concertos, chegámos a ter alguns contactos com promotores estrangeiros, mas um dos problemas que se levantou foi o de não termos distribuição comercial lá fora.


EXP. - Vão gravar outro disco?
NUNO - Este ano talvez não. O Vinyl ainda tem muito para dar, ainda temos muitos concertos para fazer.


EXP - Tencionam continuar a trabalhar em casa?
NUNO - Sim, o processo de gravação será idêntico. Não estamos descontentes com o trabalho que fizemos em casa. No estúdio percebemos de imediato as dimensões do projecto - onde é que nós queríamos chegar e o que é que tínhamos - e então ajudaram-nos bastante. Vamos provavelmente ter de trabalhar com um produtor - com mais tempo, com mais calma, sem pressas. As nossa últimas três semanas de estúdioforam uma coisa que não quero repetir.


EXP. - Que pensam sobre a distribuição de música pela Internet?
JOHN - Eu ficaria muito contente se soubesse que no Japão alguém ouvia a nossa música, mesmo se não comprou o disco. Nesse caso não recebemos direitos de autor - paciência. No nosso nível, para podermos mostrar aquilo que fazemos, o MP3, o MP4 ou outras coisas desse tipo são sempre bem-vindas. Queremos aparecer na Internet, da mesma forma que aparecemos na rádio, na imprensa ou na televisão.


Jorge P. Pires
in Expresso - 27 de Fevereiro de 1999

Saturday, October 14, 2006

The Gift :: AM-FM

The Gift

No último álbum editado, "AM-FM", os The Gift apresentaram um verdadeiro cocktail sonoro. A internacionalização, os prémios, a identidade só se conseguem com evolução comedida e faseada. Este 'presente' é nosso, mas sempre que o tentamos abrir surge outro, tão ou mais audacioso que o seu antecessor.

Este é definitivamente o ano da consagração dos The Gift. Uma década após a sua génese, acabamos por nos render à evidência. O grupo de Alcobaça provou que, no nosso país, até é possível lançar trabalhos discográficos coesos, produzir com notável criatividade e tomar as rédeas de todo o marketing, merchandising e logística sem perder o rumo.
No passado dia 3 de Novembro, na cerimónia de entrega dos MTV Europe Music Awards, os The Gift conseguiram arrecadar o "Prémio para Melhor Artista Português". Apesar de a programação musical da MTV ser discutível, não deixa de ser um galardão meritório para a banda portuguesa que, ao longo da sua carreira, tem animado, e muito, o panorama sonoro do nosso país. Os The Gift não se cansam de mudar, de se transformar, de esticar os limites da sua própria música para paragens e trilhos que tanto podem desembocar na pop mais estruturada como na electrónica sofisticada. A prova cabal da desenvoltura e vivacidade dos The Gift esconde-se no terceiro álbum de originais, que sucede ao trabalho de estreia "Vynil" (1998) e "Film" (2001). O disco duplo "AM-FM" é, sem dúvida, o mais audacioso trabalho dos The Gift, uma colecção de músicas vibrantes e atmosféricas, com texturas resgatadas da electrónica e da pop. Acima de tudo, sente-se que "AM-FM" é orgânico e representa o melhor dos quatro elementos do banda. Carregado de intimismo e até de algum romantismo, "AM-FM" não desdramatiza a "era do vazio" onde as relações humanas se cruzam com momentos de profunda reflexão existencial (AM) ou de euforia e optimismo contidos (FM).
Até agora, o quarteto de Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, John Gonçalves e Miguel Ribeiro não ficam a dever nada a ninguém, mas continuam a assumir o compromisso traçado desde 1998 - continuar a inovar e a traçar novos caminhos na sua música. Se a independência continua a ser a sua grande mais-valia, não será por isso que no percurso que se adivinha longo, a banda não vá encontrar algumas "cascas de banana". Caberá ao colectivo continuar a apostar e a gerir o seu rumo com a tenacidade a que já nos habituaram. Talvez o segredo deste 'presente' nunca venha a ser revelado, mas a tentação e a curiosidade para o desvendar continuará a ditar o futuro dos The Gift...

Sara Oliveira
in www.123som.com - 2005

The Gift :: AM-FM... Prémio MTV

'Esta é a nossa noite mais emblemática de sempre'

"Ao final de 11 anos de música, esta é a noite mais emblemática da nossa carreira", disse Nuno Gonçalves logo após a entrega do prémio para Melhor Artista Português aos The Gift, que estavam nomeados juntamente com Da Weasel. Boss AC, Blasted Mechanism e Humanos. Nuno Gonçalves confessou ao DN que "o grupo sempre acreditou na vitória, porque o ano correu muito bem, sobretudo em relação aos inúmeros concertos que demos". Sobre o significado deste prémio, Nuno referiu o factor visibilidade, porque "trata-se de um programa visto em toda a Europa. É um estímulo para o trabalho que fazemos todos os dias e poderá ser mais um degrau para uma internacionalização sólida."Os possíveis reflexos internacionais foram também referidos por John Gonçalves nos bastidores da cerimónia. Ao DN, o músico confessou que "o melhor foi sabermos da vitória em directo, no espectáculo. Foi interessante ver como, por vezes, a emoção se sobrepõe à razão". Quanto ao futuro, John Gonçalves admite um "maior optimismo. O nosso trabalho teve um clique em alguns agentes do meio. No dia 24 tocamos em Londres e será curioso saber se já haverá reflexos. Até ao momento já recebemos alguns emails e mensagens". John lembrou ainda a importância dos telediscos neste prémio "A MTV é um canal de videoclips, portanto esse foi certamente um elemento fundamental e é algo em que sempre investimos. Espero que em Portugal se dê cada vez mais importância ao valor da imagem."

Tiago Pereira e Davide Pinheiro
in Diário de Notícias - 2005-11-05

The Gift :: Vinyl... Documentário

Banda já conta com livro e vídeo
The Gift em documentário


“Com estes documentários fechamos o ciclo Vynil”. Foi deste modo que Nuno Gonçalves, um dos elementos dos The Gift, descreveu o livro “The Gift – a single diary” e o vídeo “A single camera documentary”, apresentados na passada terça-feira na livraria Rua 52, em Leiria.A iniciativa, com apresentação nacional na FNAC, em Lisboa, no mês passado, trouxe à livraria a banda de Alcobaça.
Na ocasião, Nuno Gonçalves lembrou que o livro, da autoria de Ana Pereira, pretendeu “documentar os momentos mais marcantes do grupo”. O lado menos conhecido e mais intimista dos elementos da banda, desde imagens da digressão à preparação dos concertos.Ana Pereira trabalhou quatro meses com a banda que retratou em mais de 3500 fotografias.
Apenas 121 figuram no livro que agora foi editado.
“O livro conta a história de um dia na vida dos The Gift, desde a manhã que começa com uma viagem, até à noite quando vão dormir para o hotel”, referiu a fotógrafa Ana Pereira.
O documentário em vídeo, da responsabilidade de Gonçalo Covacich, foi realizado apenas com uma câmara e não teve qualquer pós-produção. Constitui o retrato dos cerca de 60 espectáculos que os The Gift realizaram no âmbito da Vynil Tour, a digressão de promoção do álbum Vynil.
“Filmei 80 horas e o resultado representa uma viagem pelos melhores momentos do grupo e como eles são fora do palco”, explicou o Gonçalo Covacich que salientou: “nunca pedi para encenar o quer que fosse. É tudo natural e espontâneo e os The Gift não tiveram influência no produto final”.
Sustentando que o filme de uma hora e dez minutos não é material de promoção, mas um documentário, Nuno Gonçalves lembrou que “este trabalho não podia ser feito com uma ‘boys band’”.

in Jornal Região Leiria - 12/05/2000

The Gift :: Film

Festival Banda de Alcobaça na terra das oportunidades
The Gift na América


Os The Gift são a primeira banda portuguesa a participar no Festival South by Southwest que decorre de 8 a 17 de Março em Austin, Texas, Estados Unidos da América. A banda de Alcobaça vai apresentar ao público americano “The Film Tour”, o espectáculo que o grupo tem vindo a apresentar na tournée deste ano e que termina no próximo dia 15 de Fevereiro, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
Segundo Nuno Gonçalves, teclista dos The Gift, a banda inscreveu-se para participar neste festival no ano 2000, situação que acabou por não se concretizar. O ano passado o convite, foi novamente declinado devido à gravação do álbum “Film”. Mas à terceira é de vez e este ano os The Gift vão mesmo marcar presença no festival americano, situação que é inédita para uma banda portuguesa e que poucos grupos musicais europeus almejaram.
Nuno Gonçalves afirma ao REGIÃO DE LEIRIA que a participação neste festival envolve muitos custos e riscos mas que os The Gift “gostam de arriscar”. “Vamos ver no que dá. Não sabemos o que nos espera, mas é uma boa oportunidade para nos mostrarmos a outros públicos”, explica Nuno Gonçalves, lembrando que a banda vai levar na bagagem o espectáculo “Film Tour”, esperando que a actuação por terras do Tio Sam traga “outras possibilidades”. “Vamos tentar a nossa sorte no Texas”, refere Nuno Gonçalves, sustentando que “o simples facto de os The Gift terem sido aprovados entre milhares de bandas” abre boas perspectivas e a possibilidade de a banda de Alcobaça ganhar uma “nova visibilidade”.
O Festival South by Southwest apresentará ao longo de 15 dias cerca de 1150 bandas, que actuarão em cerca de 40 a 50 espaços diferentes. Além dos concertos, quem visitar o festival pode assistir a palestras, conferências e um conjunto de outras actividades paralelas relacionadas com o mundo da música.

in Jornal Região Leiria - 24/01/2001

The Gift :: Film ...Concerto Alcobaça

Concerto “The Gift” reuniu milhares de fãs
Um “Film” em Alcobaça


Os sinos do Mosteiro de Alcobaça entoaram onze badaladas. É noite de lua cheia e as milhares de pessoas que se concentram no largo em frente ao Mosteiro esperam impacientemente a chegada do grupo que levou o nome da sua cidade às ondas hertzianas de todo o país. De repente, os ecrãs que se espalham pelo palco improvisado nas escadarias do Mosteiro revelam uma Alcobaça de outrora, uma cidade a preto a branco onde a música ainda era outra. Foi este o “Film” (e homenagem) da banda que regressou a casa, sete anos depois de ter tocado a primeira música no sótão do outro lado da praça. O sonho que ficou por concretizar há dois anos, por causa da chuva, tornou-se “finalmente” (sur)real no passado sábado.
Sónia Tavares entrou no palco vestida de branco, tal como os restantes três membros da banda e “filhos da terra” Nuno Gonçalves, John Gonçalves e Miguel Ribeiro. A vocalista sacudiu o corpo, abriu os braços e exorcisou toda a violência que agitava os seus membros, libertando o tremendo “Gift” que há em si: a sua voz. A vocalista cantou e encantou o público com uma voz ora languida e quente, cheia de sensualidade, ora violenta e imponente, fazendo jus à sua fama de verdadeiro “animal de palco”.
O 56º concerto da tournée “Film” foi justamente isso: um filme, interpretado no dia em que a banda recebeu o disco de prata. Depois de “Actress”, tema do novo disco, seguiu-se “True Love of Mine”, do “Vinil”, e “Waterskin”, o primeiro single do “Film”. A atenção do público alternava entre a grandiosidade do Mosteiro iluminado de azul e rosa e “aquela” voz que abraçou toda a cidade.
E o filme continuou, com novos papéis e estórias. “Clown” foi interpretado por uma outra Sónia, mais calma e divertida. O público cantou, bateu palmas e pulou, assumindo-se como protagonista do guião. A apoteose aconteceu com a interpretação do tema “Ok! Do you want something simple?”.
Dois saxofones, um trombone, trompete, trompa e bateria acompanharam o quarteto que, depois do primeiro encore e antes de dizer adeus, prestou homenagem a Ricardo Borges, o ex-Gift e quinto elemento que subiu ao palco para interpretar o primeiro tema que o grupo compôs. O filme terminou eram já 1h30.

in Jornal Região Leiria - 07/09/2001

The Gift :: Film... Prémios Blitz

Prémio Grupo de Alcobaça na rota dos Prémios Blitz
A melhor Gift do ano?


O álbum “Film” valeu aos The Gift duas nomeações para os Prémios Blitz deste ano, como melhor banda e melhor álbum nacional.A atribuição dos prémios será anunciada a 12 de Novembro, no espaço “Vyrus”, em Lisboa, a partir das 21 horas, e pode voltar a confirmar o grupo de Alcobaça como um dos mais destacados projectos da música nacional.Entretanto, os The Gift vão fazer uma digressão aos Estados Unidos da América. De 30 de Outubro a 2 de Novembro, o grupo vai participar no CMJ Music Marathon 2002, um festival que envolve conferências, “showcases” e cinema. Recentemente, o grupo integrou o projecto “Manchester Mad Remixers”, juntamente com Rodrigo Leão e Pedro Oliveira, da Sétima Legião, num espectáculo no “Lux” a propósito do filme “24 Hours Party People”.

in Jornal Região Leiria - 25/10/2002

The Gift :: AM-FM

Fãs elegem “Dream with someone...”

Os The Gift perguntaram e os fãs responderam: “Dream With Somone Else’s Dream” é a música que gostam mais de ouvir ao vivo.O tema, que consta no primeiro disco da banda de Alcobaça, “Vinyl”, e do EP que o antecedeu, “Digital Atmosphere”, foi o tema mais votado como o preferido nos concertos. Seguiram-se “Five Minutes of Everything” (“Film”) em segundo e “Concret” (“Vinyl”) e “Front Of” (“Film”), em terceiro ex-aequo.Entretanto, os The Gift continuam a intensa digressão de “AM/FM”, que vai ter um dos pontos altos no dia 9 de Julho, com a actuação no festival Hype@Tejo, em Lisboa.

in Jornal Região Leiria - 01/07/2005

The Gift :: AM-FM... FIFA 2006

The Gift jogam no FIFA 2006

A dias de lançar “Music”, o terceiro single de “AM-FM”, os The Gift receberam a boa notícia de integrarem o lote de 39 grupos que fazem a banda sonora do jogo para consolas e computadores, “FIFA 2006”.O que representa a escolha de “11.33” para o jogo FIFA 2006?Apesar do jogo ser distribuído cá, é um passo importante na mostra da música dos Gift além fronteiras. Há uns anos que esse é um dos objectivos primordiais. A escolha de “11.33” para o jogo deve-se a um festival em Los Angeles, onde estivemos neste ano. Correu-nos muitíssimo bem e algumas pessoas que lá estavam para escolher “sangue novo” para este tipo de jogos, mostraram logo interesse. Em Maio vieram ver um concerto dos Gift a Portugal e confirmou-se a nossa presença no FIFA 2006.

É fã do jogo?
Nunca joguei. O Miguel [Ribeiro, elemento do grupo] é fanático por PlayStation, embora o FIFA não seja o jogo dele. Mas, da mesma forma que ainda hoje compro os CD dos Gift, vou comprar o jogo. É um marco na carreira dos Gift, uma peça para a colecção.

Como é constar ao lado de nomes como Royksopp e Jamiroquai?
... e dos LCD Soundsystem, Oasis e tantos outros. É óptimo, claro. As estimativas de venda são entre 8 a 10 milhões de cópias. Um miúdo em qualquer lado do mundo vai poder jogar e ouvir os Gift. É uma grande ajuda para a nossa projecção.

Há perspectivas de distribuição do “AM-FM” no estrangeiro?
Para já queremos reforçar a distribuição por cá. Temos dado concertos em Espanha e as coisas estão a correr muito bem. Pode ser que destes contactos surja o interesse de alguma editora.

Este ano tem sido muito intenso para os The Gift...
Não paramos de tocar. Vamos ultrapassar a centena de concertos este ano. É muito bom para nós e para o disco, para as pessoas conhecerem o “AM-FM” e os seus lados introspectivo e explosivo.

in Jornal Região Leiria - 02/09/2005

The Gift :: AM-FM... Prémio MTV

E o vencedor é... The Gift!

Se havia dúvidas, a MTV dissipou-as. “Mais que uma promessa, somos um grupo com carreira e créditos firmados”, dizia Nuno Gonçalves, no “day after” dos The Gift, premiados por aquela estação de televisão especializada em música como o “Melhor Artista Nacional” do ano. Com “AM-FM”, cimentaram uma posição de destaque na música nacional. A MTV, que entregou os “European Music Awards” (EMA) de 2005 em Portugal, reconheceu-o.
“É o momento mais alto dos Gift em termos de reconhecimento público”, frisa Nuno Gonçalves, do grupo de Alcobaça, que explica o facto do EMA ter ido para Alcobaça: “O ‘AM-FM’ vendeu bem. Tocámos bastantes concertos, com uma qualidade que nos contentou bastante. Acreditávamos que o prémio podia ser nosso”. A ajudar esteve também “uma máquina de promoção e marketing muito forte” que, “mais tarde ou mais cedo, nos daria dividendos disso”.
Agora seguem-se as repercussões. “Se algum grupo nacional tivesse ganho há dez anos, era possível bandas como a nossa estarem, hoje, em palcos como os da MTV”, considera o compositor e responsável pelos teclados dos Gift.
Por isso, a banda de Alcobaça está na “pole-position” para o lançamento internacional. “Há ainda muito a fazer. Não queremos ser uns Coldplay ou Rolling Stones mas sim fazer digressões em salas bonitas. Se tocamos bem em salas grandes e pequenas de Portugal, estamos prontos para adaptar isso a outros países”. E para concretizar outro sonho: lançar os discos por todo o mundo.
A noite de quinta-feira passada ajuda a que isso tudo possa ser realidade. “O que fizemos nos últimos anos, os discos que enviámos para publicações no estrangeiro, os concertos que demos, etc, tudo isso fez ‘click’ junto dessas pessoas ao ouvirem que os Gift ganharam um prémio MTV”.
Com a digressão por Portugal, Espanha e Inglaterra em curso, o grupo ainda não pensa em novo disco. “É altura de saborear este prémio. E ainda há muito para sintonizar no ‘AM-FM’”, diz o músico.

in Jornal Região Leiria - 11/11/2005

The Gift :: AM-FM...Concerto Foz do Arelho

Encerramento do Verão 2005
The Gift em noite fria na Foz do Arelho

O concerto do grupo The Gift na noite de 27 de Agosto assinalou o encerramento das actividades de Verão na Foz do Arelho, numa noite fria e húmida.

A música dos Deluxe, banda espanhola que fez a primeira parte do espectáculo, não chegou para aquecer o ambiente, mas com a subida ao palco dos The Gift o público ficou bem mais animado.

Ainda assim, a banda de Alcobaça atraiu menos gente do que os Da Weasel e Maurício Mattar há um ano. Desta vez o trânsito na Foz do Arelho não ficou tão caótico como em anos anteriores, embora estivessem presentes alguns milhares de pessoas.

Para os The Gift, estar nas Caldas é como “voltar a casa”, segundo a vocalista Sónia Tavares, depois de terem andado por Espanha e percorrido todo o país com a digressão “AM-FM”.

Nuno Gonçalves, principal compositor e porta-voz da banda, nasceu nas Caldas da Rainha e recordou que esta era a terceira vez que vinham a este concelho, depois de terem participado em duas Semanas Académicas. “Somos sempre muito bem recebidos e este sítio é fantástico para fazer concertos ao vivo. Cada vez mais é importante fazer concertos nestes espaços grandes”, afirmou.

Segundo Nuno Gonçalves, a digressão está a correr muito bem e em breve vão ultrapassar os 100 concertos. Em Setembro voltam a Espanha onde irão fazer a primeira parte dos concertos dos Deluxe até ao final do ano, mas também vão actuar em Portugal e a 15 de Setembro num festival em Berlim para o qual foram convidados depois de terem estado em Los Angeles, seguindo Praga e Londres. “O tempo de digressão deste álbum vai ser mais longo, porque acreditamos que este último disco tem muito mais para dar”, disse.

Até ao próximo Verão vão continuar a apostar na sua divulgação, principalmente em Portugal e Espanha. Mas o grupo já teve passagem pelos Estados Unidos, França e Inglaterra. “Para termos uma carreira lá fora é preciso estar com as pessoas certas, na altura certa”, revelou o músico. Nuno Gonçalves acredita que os The Gift sejam cada vez mais vistos pela indústria da música como uma esperança na “nova música”.

Quanto às vendas do “AM-FM” já chegaram às 30 mil unidades, mas como é um disco duplo oficialmente já venderam 60 mil cópias. “As vendas estão neste momento a decorrer a um ritmo estável”, disse. Resultados que são bastante bons. “Nós nunca esperamos nada, porque da maneira que a indústria portuguesa está não se pode esperar nada”, comentou. Com edição própria, o CD está a ser distribuído pela Universal.

Em Setembro será lançado o novo single “Music” que a banda acredita será amplamente divulgado pelas rádios nacionais. “Eu acho que é um single que pode fazer um crossover interessante em termos de público e que é perfeito para uma reentrée de Inverno”.

Actualmente ainda não pensam num novo disco. “Um escritor só escreve quando tem alguma coisa nova para dizer e nós neste momento achamos que o AM-FM ainda é o nosso discurso”, explicou.

Outra novidade na carreira da banda de Alcobaça é a participação na banda sonora do novo jogo de futebol “Fifa 2006”. O tema, intitulado 11.13, faz parte do último CD e acompanhará músicas de Jamiroquai, Oasis e Carlinhos Brown, entre outros.

Pedro Antunes
in oesteonline.pt - 2005-09-06

The Gift :: AM-FM... Prémio MTV

Banda de Alcobaça premiada"The Gift" ganham prémio MTV

O prémio para Melhor Artista Português “Best Portuguese Act”, atribuída na edição 2005 dos MTV Europe Music Awards, uma festa que decorreu no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, na passada sexta-feira, foi entregue aos “The Gift”, perante um audiência estimada de um bilião de espectadores. Estavam nomeados para esta categoria, para além da banda de Alcobaça, “Da Weasel”, “Os Humanos”, “Blasted Mechanism” e “Boss AC”.

O grupo vencedor recebeu o prémio das mãos dos VJs da MTV Portugal e agradeceu à família, aos amigos e aos fãs. Sónia Tavares, vocalista da banda, em declarações à imprensa, confessou que “estamos radiantes por ter estado nesta festa e por termos ganho este prémio”.

Nas cinco bandas nomeadas para prémio de Melhor Artista Portugês estiveram duas das bandas que durante a década de 1990 se lançaram e foram finalistas do "Concurso de Música Moderna de Alcobaça", organizado pelo "Bar Ben" entre 1991 e 1997. Essas bandas eram os "The Gift", segundos classificados no “Concurso de Música Moderna de Alcobaça”, realizado em 1994, e os "Blasted Mechanism", que venceram a edição de 1995.

Dos 13 premiados na cerimónia, destacam-se os “Green Day”, vencedores na categoria de Melhor Artista Rock, Robbie Williams, Melhor Artista Masculino e Shakira, vencedora do prémio Melhor Artista Feminino.

A sonoridade dos “The Gift” começou a ganhar forma e em Setembro de 1994. Sónia, Nuno, Miguel e Ricardo (com idades compreendidas entre os 16 e os 21 anos) integram a banda mais falada de Alcobaça.

Do último disco lançado dos “The Gift”, “AM-FM”, irá sair o terceiro single. Recentemente, a banda de Alcobaça foi seleccionada para integrar a banda sonora do jogo de computador FIFA 2006, com o tema “11.33” e participou na série de concertos “Live n’ Loud”, onde estiveram presentes estrelas mundiais como Madonna, Coldplay, Green Day e Robbie Williams.

Liliana João
in oesteonline.pt - 2005-11-10

The Gift :: AM-FM...Concerto Mais Pequeno do Mundo

“Concerto Mais Pequeno do Mundo”
Praia D’El Rey recebeu os The Gift

O Praia D’El Rey Marriott Golf & Beach Resort recebeu no passado dia 28 de Janeiro um concerto acústico dos The Gift exclusivo para 10 casais vencedores do concurso lançado pela Rádio Comercial.

O concerto insere-se na iniciativa da Rádio Comercial denominada “Os Concertos Mais Pequenos do Mundo” que consiste num concurso onde 10 casais têm a oportunidade de ganhar uma estadia num hotel e assistir a um concerto acústico de uma banda num ambiente bastante exclusivo.

O evento, que incluiu um jantar dos The Gift com os ouvintes vencedores do concurso, foi totalmente fechado ao público. No entanto, o concerto irá ser transmitido em data a definir em www.radiocomercial.clix.pt. O prémio dos 10 casais incluiu também uma noite de estadia no Praia D’El Rey Marriott com pequeno-almoço.

Sendo os The Gift de Alcobaça, os músicos quiseram escolher um hotel na zona, seleccionando o Praia D’El Rey Marriott. O hotel, situado a 45 minutos de Lisboa e a 5 minutos da Lagoa de Óbidos, dispõe de 179 magníficos quartos e suites, cada um com uma varanda privada virada para o Oceano Atlântico ou para o campo de golfe de 18 buracos considerado como um dos 100 melhores campos do Mundo. Este Hotel de cinco estrelas conta com dois restaurantes que oferecem uma excelente cozinha mediterrânica, um grill no terraço da piscina exterior, além de um lobby e lounge. O Hotel dispõe ainda de um SPA com profissionais especializados que cuidam do bem-estar do corpo e da mente e de um health club completamente equipado.

Fonte: Praia D’El Rey Marriott Golf & Beach Resort -2006-30-01

The Gift :: AM-FM... Entrevista

"Teve lógica ganhar depois de um ano bom"
Depois do prémio MTV, os Gift falam ao JN sobre uma carreira pautada pela independência

São de Alcobaça e andam na estrada há mais de uma década. Com quatro discos e centenas de concertos, os Gift destacam-se pelo facto de sempre se terem recusado a assinar um contrato com uma editora discográfica. Tal postura não os impediu de angariar milhares de fãs e de vencer o prémio MTV para "Best Portuguese Act" (melhor banda portuguesa).

[Jornal de Notícias] Ficaram surpreendidos por receberem o prémio?
[John Gonçalves] Três ou quatro dias antes da cerimónia perguntaram-me isso. Eu respondi que sim. Mas disse que os outros candidatos também eram muito fortes. Nós acreditamos sempre muito no nosso público, nos nossos fãs, nos nossos amigos, nos nossos concertos, nos muitos discos que vendemos e no 'airplay' que tivemos na televisão. Tínhamos feito um ano muito bom e seria lógico que ganhássemos. Mas os outros também seriam justos vencedores.


Sentiram algum nervosismo durante a cerimónia?
[JG]
Houve alguma ansiedade, sem dúvida. Mas a cerimónia foi de tal forma bem organizada e tão profissional que sentíamos que o prémio era uma coisa secundária. Estávamos ali a desfrutar daquele momento único. E estávamos ao lado daquelas estrelas todas e a ver o espectáculo numa posiçao privilegiada. Só quando chegou o momento do anúncio da nossa categoria é que ficámos nervosos. Mas foi um belo momento. Valeu a pena.


Sabem quantos votos receberam?
[JG]
Ouvi falar em largos milhares. Não sei quantos foram, mas sei que houve uma participação massiva para todos os nomeados nesta categoria.


Cruzaram-se ou conviveram com as grandes estrelas nos bastidores?
[JG]
Cruzar sim, conviver nem por isso. Estivemos com os Bloc Party no início e com o Bob Geldof no fim. Infelizmente, a Madonna e o Robbie Williams estavam noutro piso. Estivemos, também, com os nosso queridos Luís Figo e Nuno Gomes. E ainda outros. Basicamente, estávamos todos lá atrás menos a Madonna e o Robbie Wil-liams. Conversámos com outros, ouvimos alguns parabéns, mas não partilhámos grandes intimidades.


Afinal, o que se passou depois da cerimónia à porta do bar de uma das festas oficiais?
[JG]
Não se passou nada. Fomos ao Budha Bar para dar um abraço às pessoas da nossa distribuidora - a Universal. Quando lá chegámos havia uma confusão à porta para organizar a lista de convidados. Disseram-nos para esperarmos, mas, como a nossa ideia era ir para o Lux, telefonámos lá para dentro e dissemos que íamos embora.
[Nuno Gonçalves] E qual não foi o nosso espanto, quando, no dia seguinte, vimos as manchetes e as televisões a falarem só disso. De alguma forma, minimizaram o nosso prémio. Decidiram dizer que os Gift estavam furiosos por não entrarem no Budha Bar. Eu nunca na vida vou ficar furioso por não entrar em algum lado. Aliás, nada naquela noite nos ia tornar furiosos ou tristes.
[JG] Tínhamos combinado ir para o Lux desde o primeiro momento. Divertimo-nos, estivemos com amigos, portanto, nem sei qual foi o problema...
[NG] Há pessoas que gostam sempre de fazer telenovelas à volta de tudo. Foi absurdo. Não há mal a dizer do Budha, nem há mal a dizer da Universal. Às tantas, estava a ver televisão e, no 'zapping', apanhei a astróloga Maya (proprietária do bar) a dizer: "Eu própria vou escrever uma carta a pedir desculpa aos Gift". (risos) Não tem nada que pedir desculpa, é uma coisa que acontece em todo o lado: a discoteca está cheia e tem que se esperar um bocado. Mas naquele dia não queríamos esperar muito tempo: queriamos animação, é normal, tínhamos acabado de ganhar um prémio MTV e não estávamos para ficar na rua ao frio. Foi absurdo. Entretanto, já há várias teorias: uns dizem que foram os Gift que fizeram birra, outros dizem que foi a Maya que não conheceu os Gift (risos).


O facto de terem conquistado este prémio vem mudar algo na banda?
[JG]
Nada. Felizmente, já temos 11 anos disto e percebemos muito bem como as coisas funcionam para não nos deixarmos envolver por este tipo de coisas. O que pode mudar é a exposição mediática. A partir de agora, essa exposição pode ser maior. Já trabalhámos lá fora há algum tempo e obviamente que isto é mais um trunfo que temos, porque durante 12 meses, como nos concursos da Eurovisão ou da Miss Universo, este prémio é nosso. Até haver um novo "Best Portuguese Act", a melhor banda portuguesa de 2005 são os Gift.


Mas já sentem maiores atenções vindas do estrangeiro?
[JG]
Em Espanha, por exemplo, a imprensa tem falado muito neste prémio durante esta última semana. No final do mês, vamos tocar a Inglaterra e, se calhar, será mais fácil as pessoas aparecerem no concerto.
[JG] Basicamente, poderá funcionar como um reavivar de memória a todas as pessoas no estrangeiro que já receberam o nosso CD anteriormente. Nos últimos anos distribuímos milhares de discos por editoras e agentes e pela indústria pelo mundo fora.
Têm recebido propostas tentadoras por parte de editoras?
[NG] Não. As editoras já sabem que nós temos uma forma de trabalhar - e que sempre foi respeitada. É um território onde ninguém tenta entrar, porque sabe que, à partida, não vamos por aí. Não há nenhuma editora mundial que nos trate tão bem como a La Folie - que somos nós. Nós é que escolhemos os 'videoclips' que fazemos, nós é que escolhemos as pessoas com quem vamos trabalhar, nós é que escolhemos os singles ou os timings de lançamento. Dificilmente encontraremos uma editora que tenha esta liberdade criativa e de movimentos porque estão habituadas a uma certa rigidez.


Se pudessem mudar algo na indústria musical, o que mudariam?
[JG] - A primeira coisa que eu mudaria, e já, seria ter uma banda portuguesa a tocar nos prémios MTV. Nós estamos presentes em todas as feiras internacionais: no Midem, no Texas, em Nova Iorque, na Holanda ou em Berlim. E estamos sempre sozinhos! Portanto, se a indústria portuguesa quer realmente merecer ter um lugar de destaque na Europa ou no Mundo, tem de começar a apresentar os seus projectos no estrangeiro. Temos que perceber que se não conseguirmos exportar o nosso produto lá para fora se calhar isto vai ser pequeno demais para novos projectos nos próximos anos. E depois acontece que a maior parte das pessoas têm que arranjar um segundo trabalho para conseguirem viver. Cá dentro, as grandes editoras têm muito catálogo: deviam ter menos e trabalhar melhor o que têm - apesar de isto parecer complicado para as bandas novas que querem assinar com uma editora.


Algo que os Gift não fizeram...
[JG] -
Nós não assinamos por ninguém e fomos à nossa vida: fizemos o nosso trabalho de forma alternativa e independente. É assim que as bandas têm que fazer e vão ter que fazer nos próximos anos. Depois, há o problema do circuito de concertos. Nós fomos à procura dele. Quando não existia, criavamo-lo: em teatros, clubes, queimas das fitas, etc.. Em vez de dizer mal dos problemas tentamos encontrar as soluções. E há, também, a questão das rádios. É óbvio que se a rádio apoiasse mais as novas bandas, tudo seria melhor...
[NG] - Mas em relação às rádios, os Gift não se podem queixar: as nossas músicas passam, felizmente, em quase todas. Quem se poderá queixar são as bandas novas, que podem não ter disco, mas já têm maquetes com bastante qualidade. Lá fora há um mercado independente que cá não há. As coisas, aqui, morrem um pouco na distribuição. Na maior parte dos países vemos as grandes editoras que lançam discos que vendam mais. E depois têm o top independente. Cá não existe esse mercado. Mas existe uma editora como a Borland, que está a fazer um trabalho que é quase serviço público.


Como é que os Gift lidam com esta nova realidade das cópias de cds e troca gratuita de música na internet?
[JG] - Faz parte do processo. Onde isso realmente nos afectou bastante foi na altura em que lançámos o "Film". Antes disso, essa troca de ficheiros ou cdrs ainda quase não existia. Foi o nosso primeiro grande choque. Começámos a sentir, nos concertos, os tais cdrs a aparecerem para nós autografarmos. As pessoas achavam isso normal. Começámos a perceber que os miúdos mais novos já não têm noção do que é piratear: "Eu gosto dos Gift, tirei o disco da net e agora vou pedir um autógrafo" (risos). Nós temos que viver isso. Ponto final. Temos que encontrar maneiras de tratar sempre bem os fãs. Se os fãs dos Gift gostam da nossa música e pagam para ir aos concertos mas tiram o nosso disco da internet, estão, no fundo, a prejudicar-nos. Porque com as receitas deste disco fazemos o próximo. Isto é complicado. Mas sabemos que há outras maneiras: gravamos os nossos concertos e vendemos as gravaçoes à porta dos concertos, por exemplo. Ou tal como o merchandising. Portanto, há outras maneira de dar a volta a esse problema da pirataria.

[NG] - Muitas das vezes o público que pirateia é melómano: são miúdos que sacam na Internet quatro ou cinco discos por dia, uma quantidade que não consegues comprar nas lojas a não ser que sejas milionário. Não podemos censurar quem gosta muito de música. E muitas vezes esses fãs são mais fortes e estimulantes do que muitas pessoas que até compram o disco.

Os Gift vivem desafogados com o dinheiro que ganham na banda?
[JG] - Às vezes, as pessoas percebem mal a forma como as cosias funcionam. Isto é um pouco como a formiga e a cigarra. Imaginemos que este ano nos corre bem. Mas depois ficamos três anos até sair o próximo disco. E sem nenhum tipo de receita. Nós gostavamos muito de ter o nosso trabalho e receber todos os meses o nosso rendimento - mas isso não é possível. Qualquer músico sabe que as carreiras têm picos. Nós lançamos um disco e trabalhamos nele durante um ano com os concertos. Depois, passa esse ano, os concertos acabam e os discos deixam de vender - e tu tens que viver e comer. Eu pessoalmente não acredito em riquezas com a música em Portugal. Qualquer um dos meus amigos da escola deve estar melhor do que eu. Mas, se calhar, eu estou muito mais feliz naquilo que faço.


Já deram dezenas de conceros no estrangeiro...
[JG] - Já foram mais de cem....


E onde sentiram as melhores reacções por parte do público?
[JG] - Em Espanha.
[NG] - Eu ia dizer nos Estados Unidos...
[JG] - Também.
[NG] - Nos Estados Unidos há um público muito caloroso. Lembro-me que quando fizemos as primeiras partes dos Flaming Lips, as coisas correram muito bem - as pessoas vibravam e não tinham vergonha de o demonstrar. Em Espanha, o público também reage bem.
[JG] - Em Espanha tocámos 45 vezes e nos Estados Unidos quase 40. O resto são datas na europa e na Venezuela.


Na Venezuela?
[NG] -
Sim, com segurança pessoal, e quatro televisões nas conferências de imprensa. Mas não havia portugueses.


Cristiano Pereira
in Jornal de Notícias - 2005-11-11